2017-09-14

Saramaguíada - sai no final de Setembro

Nos "teasers" e nos primeiros anúncios do terceiro livro, a ideia que passámos foi sempre a de lançar no final do Verão de 2017. "Teaser" no dia 14 de Junho, que passará a ser o Diassaramago, porque este livro o cria, e mais não é preciso. Lançamento no dia 15 de Setembro.

Acontece que a pré-venda correu tão bem que superou as previsões de autor e editora, e absorveu toda a primeira remessa do prelo. Aliás, literalmente, "não chegou para as encomendas". Ora, como a nossa palavra é só uma, ou seja, nem pensar em ter o livro nas livrarias antes de estar nas mãos de quem apoiou esta aventura previamente - já chegou a algumas centenas, mas tem de estar na mão de todos eles - a edição foi atrasada, a meu pedido, para o final de Setembro.

Este post celebra a chega do novo animal ao jardim zoológico literário.

A fotografia é do "despacho" de José Luís García Martín, um dos maiores e mais respeitados e reputados intelectuais ibéricos, o Professor Catedrático de Oviedo, Departamento de Filologia, e que vamos ter a honra de receber este fim-de-semana no Festival Literário de Ovar e que é o melhor cartão de visita para o livro. Livro que, é visível na fotografia, chegou ao "despacho" de García já com marcas visíveis de uma viagem atribulada: resta saber se criatividade dos Correios de Portugal ou dos Correos de España. Em Ovar, convidei-o para dizer mal de mim e do livro. Espero também dizer mal dele. Será uma oportunidade única. O meu respeito intelectual por ele não permitirá outra gracinha.

Gratidão para os que apoiaram na pré-venda e pedido de desculpa para esta espera extra de duas semanas para os que o esperam em livraria.

PG-M 2017
fotografia de J.L. García Martín

2017-08-30

O último dia

 A partir de 1 de Setembro rege a lei do preço fixo. 31 de Agosto é o último dia de pré-venda, avisa a editora. Obrigado aos muitos que apoiaram e aos que nas próximas 24h ainda o farão. O livro está no prelo e sai quentinho esta madrugada. Começará a seguir segunda-feira para os que apoiaram esta fase. Nas livrarias estará a partir de 15 de Setembro. Os primeiros lançamentos serão aqui anunciados (e no facebook e no instragram). Loja online aqui.

2017-08-05

Entrevistas 2017 - a primeira

A prosa exige muita oficina, muito suor, perseverança e trabalho’

com 1 comentário
Entrevistas > Pedro Guilherme-Moreira em Escritores online

Pedro, quando é que surgiu a tua vontade de escrever ficção e de publicar?
A resposta a esta vai logo na badana do primeiro livro, “A manhã do mundo”. A professora da 2ª classe pediu-nos para escrever uma fábula e eu transformei-a numa formiga. Era o que me apetecia fazer, mas pensava que estava a ter um atrevimento que seria severamente punido. Eu era bem comportado. Tinha tido dificuldades na primeira classe por excesso de medo. A professora Laura tirou-me o medo todo quando me ensinou a fazer contas de dividir, no primeiro dia, e me deu a nota máxima e elogios por ter feito a loucura de a transformar em formiga. A partir desse dia, achei que tudo era possível. A literatura faz isso. Transforma-nos em gajos perigosos. Mais valia ser medricas.
Onde é que, por norma, encontras a inspiração para escrever as tuas obras?
Temos de distinguir a poesia da prosa e do teatro, para falar só em três géneros. A poesia já lá está, é nossa responsabilidade reduzirmo-nos à mesma formiga da fábula para transportar a poesia e a mostrar ao mundo. Nem sempre o fazemos bem. Quando nos apagamos completamente, mesmo que sejamos o objecto do poema, um ou dois de nós chega lá, de vez em quando – a poesia é talvez o processo biológico mais próximo da inspiração. A prosa exige muita oficina, muito suor, perseverança, trabalho – eu quase só vejo inspiração no primeiro acto, aquele que nos obriga a parar tudo para registarmos a possibilidade de um novo livro. Finalmente, o teatro: nunca tive tanto prazer como quando escrevi para teatro. Estava lá, no palco, e tudo aconteceu ao mesmo tempo nas teclas e no papel. Uma sensação maravilhosa e terrível, ao mesmo tempo. Mas neste gajo perigoso há um denominador comum, seja na literatura, seja num jogo de voleibol: vísceras.
Quais as temáticas mais presentes na tua escrita?
Estava preparado para ser evasivo, como nos ensinou Bukowski, mas na verdade tenho-as: levar-nos para as margens da natureza e da condição humana. Tenho quase um desespero de nos observar lá, onde nenhuma minudência pode importar, de perceber o que realmente importa. Como fiz nas torres gémeas. Descrevi os suicidas e depois tirei-lhes a carne e vesti-me neles, para que sentíssemos o mesmo que todos os três mil mortos. Eu e todos os leitores. No Livro sem ninguém tirei-nos do mundo e li-nos lá. Um livro sem personagens grita gente por todos os lados. Noutros, inéditos, reverti as metamorfoses. No novo, “Saramaguíada (a invenção de Pilar)”, obriguei a ideia de Saramago a fazer as vezes de Quixote e levei-o de barca aos limites da literatura e do próprio amor, que são coisas diferentes, embora aquela contenha este e este não contenha aquela.
Que aspetos destacarias relativamente ao livro que publicas este ano, o terceiro, “Saramaguíada”?
A Pilar chega a Lisboa para conhecer fisicamente o Saramago a 14 de Junho de 1986, estávamos nós a aturar Saltillo e o México 86. É o Diassaramago, que se celebrou ontem. Nesse dia, levámos no corpo de Marrocos, 3-1, um golo do Diamantino. E nós, eu e vocês, não vamos dar descanso à ideia de Saramago, que renasce para isto, como renasce a cada leitura dos seus próprios livros. Mostro a Pilar pré-1986. Achei que devia. A Pilar faz parte da nossa literatura, é uma realidade, não podemos fingir que não, não devemos fingir que não. Não mostro a vida comum deles. Mostro-os depois da morte dele. Cruzo o mundo ideal com o mundo real de uma forma muito prosaica e simples, desde que ninguém se agarre ao tempo. O tempo, sendo tudo, importa pouco para as ideias, que, como sabemos, vão, voltam, são recicladas desde as cavernas – às vezes são relativamente novas, mas nunca são novas, ao contrário dos livros – claro que ainda não se escreveu tudo e os livros são mesmo novos, quando são. As ideias sobrevivem no tempo, mas também apesar do tempo. Assim, levo o Saramago a conhecer o Eça e a Maria Amália Vaz de Carvalho por motivos frívolos, que é o que tantas vezes fazemos no “meio”. Dou-lhe uma missão banal. Obrigo-o a aturar o jovem Pessoa e o seu cão Shadow e a levá-los nessa missão. O jovem Pessoa apaixona-se pela Annabel, do Lolita, do Nabokov, o que se torna um problema, porque Nabokov determinou que Annabel morresse de Tifo em Corfu. O jovem Pessoa sabe disso e quer evitá-lo a todo o custo. Em Corfu, ou numa espécie de Corfu, chamada Ilha dos Jornalistas sem Cabeça (onde reflicto sobre jornalismo e sigo os últimos passos do jornalista mártir brasileiro Vladmir Herzog) Saramago é julgado em público e defendido pelo Padre António Vieira. Encontra-se com O’Neill em Lisboa e com Virginia e Leonard Woolf numa ilha parecida com Amalfi, assim como com muitos outros escritores brasileiros, portugueses, espanhóis. Levo-o à Tormes de Eça comer o célebre arroz de favas. Encontra-se com Voltaire em Paris e com a mãe de Pessoa em Davos, numa volta de Montanha Mágica. E com vários vultos nas barcaças que o levam para aqui e para ali. Enfim, o livro nem é grande (cerca de 320 páginas), mas para mim tem um certo infinito, como aquelas pistas de aeroporto infinitas que querem agora construir, porque são circulares. Ah, e temos uma personagem arrepiante (temos várias, mas esta é principal): a própria Leni Riefenstahl, a cineasta do Hitler.
Quais os momentos mais marcantes no teu percurso enquanto escritor?
Encontrar os editores e os leitores de todas as idades. A emoção de ver um editor de grande qualidade mostrar-nos que a grande merda que fizemos, quando pensávamos (não pensamos todos) em obras maestras, como dizem os espanhóis. A Pedreira, que me deu a mão para lá deste muro alto da edição, apesar de termos feitios e ideias muito diferentes (creio que nos estimamos e respeitamos muitíssimo). A Virgínia do Carmo, pela humildade e pela coragem. E tantos leitores, dos 11 aos 97. As visitas às escolas são um profundo privilégio, apesar de precisarem de uma afinação de egos e métodos pedagógicos. Todo o ensino do português precisa. Não se ensina a ler nem a escrever, que é o fundamental. Exagera-se em grelhas numa “ciência” de máxima subjectividade. Só os grandes professores de português nos salvam.
O que é, para ti, um bom livro? 
Não me meto na definição universal do bom livro, que não existe. Para mim é fácil ver um mau livro, mas aprendi que quem os escreve, se tiver a humildade de os destruir e avançar, pode vir a escrever bem. Quase sempre, os livros mal escritos são escritos por maus leitores. Mas há bons leitores que não conseguem encontrar a voz e a técnica. A pressa em publicar não serve de nada. Mais vale ser injustamente recusado do que auto-publicar sem crivo e a ciência do editor. Isto era um mau livro. Um bom livro, para mim, só para mim, é um livro que me pendura pelos cueiros, que me faz praguejar do quão bom é, que me faz desesperar por não conseguir “resolver” aquela voz, que quero sempre desesperadamente plagiar para aprender a fazer parecido. É, cada vez mais, o livro que me mostra oficina. Ouvi dizer, um destes dias, já não sei quem nem sobre quem, que o bom livro e o bom escritor deixam as costuras à vista. Nem que tenham de as esconder no processo.
E o que faz de um escritor um bom escritor?
Ser simples, não emitir opiniões como sentenças erga omnes e deixar-se de merdas. Lutar pelos livros todos, não só pelos seus. Ser humilde perante o leitor e o editor. Colocar o leitor no topo da pirâmide. Saber parar e questionar. Não atacar publicamente os pares, mas criticá-los e pensá-los muito em privado e olhos nos olhos ou até nas costas, se ele não estiver por ali, desde que tenha a decência de, na primeira oportunidade, dizer na frente o que pensa. Não ser subserviente ao statu quo vazio, mas respeitar os decanos, a sabedoria e a erudição, lutando por uma nova. E, se, no final de tudo, for uma reles pessoa, que se meta em casa ou no escritório e se dedique obcecadamente à literatura, para não magoar mais ninguém e fazer o bem aos vindouros, poupando os contemporâneos. Se for uma reles pessoa, por favor não escreva no facebook.
Para terminar, gostaríamos que nos indicasses os teus 7 escritores de eleição e os 7 livros que, indubitavelmente, recomendaria.
Gosto muito de muitos portugueses, mas vou optar por não indicar nenhum. Porque os clássicos não precisam e porque não é por mim que os novos terão mais leitores. Tenho, no entanto, de dizer duas coisas: o Pessoa é omnívoro e deve ser consumido com tento. Contra mim falo, porque o tenho em todo o (novo) livro, embora jovem, criança. E deixem de opinar sobre o feitio da Ana Teresa Pereira como se fosse um ser humano, porque ela também já é um mito. O maior mito britânico português. Portanto, quanto ao restante, Proust – Recherche, tem de ser. Bukowski também, qualquer um. Bachelard e Platão (e este inclui Sócrates, como sabemos, porque Sócrates não escreveu uma linha), idem. Colette, que não é só para gajas (essa era um das parvoíces), Chéri. Qualquer poetisa que não chame a si própria poeta vale a pena, só por isso, embora não deva ser excluída das escolhas só porque usa um adjectivo de género masculino sobre si própria. Os sábios de rua de todas as aldeias do mundo, e que cada vez escutamos menos, com a excepção do Fernando Alves. Insisto na Bíblia, no Dom Quixote, na Karen (os meus são íntimos, digo depois). La arte de quedarse solo, de García Martín. Se isto é um homem, Primo Levi. Já chega. Obrigado!

2017-07-10

Tudo

Foi hoje, sim. Eram umas nove e tal da noite. E não peço mais nada. Não pedi isto hoje, logo hoje, não contava, não esperava, não sabia, mas ele veio ter com o pai. Subitamente percebi que era tudo para mim. Eu tinha pedido uma vitória sobre a Espanha, mas perdemos (nem sei bem se perdemos, se ganhámos uma equipa), mas afinal era isto. E isto é tudo. Não posso pedir mais. Ele já está no trilho de afastamento, e no entanto parece mais próximo do que nunca. É um puto duro, nada mimalho, com um coração profundo. Perceberam que isto é sobre mim? É. Está tudo aqui. Não preciso de mais nada. Foram dos melhores segundos e das melhores prendas da minha vida. Longe, em Bad Blankenburg, na antiga Alemanha de Leste. Eu, que me chega vê-lo de longe, das bancadas, a rebentar de orgulho, esteja ele no banco ou no campo. Não o publico para exibir perfeição ou felicidade. Publico porque é o que quero para mim hoje e acho que mereço.

#myboy
#myday
#volleyball

2017-06-19

Luto, luta

Sabem o que nos dá medo e todos os outros sentimentos que se confundem entre os nossos princípios e o desespero, a raiva, a indignação, a impotência? Pensarmos que podíamos ser nós, ali, naquela ratoeira, nós ou os nossos. Que não conseguiríamos valer a um filho, a um amigo, a um passante. Primeiro eu quis saber exactamente o que se passou e porquê. Já sei. Depois deixei de conseguir falar em público. Já em privado é difícil, quanto mais em público. Desabafei duas ou três coisas cá por casa, mais nada. Mas aqui estou a escrever, agora. Não sei bem o que dizer do barulho que hoje se faz nas redes sociais. Acho que é aflição misturada com solidão. Creio que a maioria de nós teria sido um herói, podendo. Creio também que todos queremos que isso dos heróis não seja tão necessário. Que as pessoas estejam seguras nas suas belas e simples vidas. Lembro-me daquele movimento dos indignados e de como a maioria voltava para as suas vidinhas no dia seguinte, sem fazer nada pelo mundo. De como eram violentos quando lhes diziam: já gritaste, agora faz. Creio profundamente que a nossa posição no mundo é fazer alguma coisa por todos os outros sem gastar energia e tempo a anunciar que se faz. Creio que as responsabilidades públicas, políticas, dos tempos que correm são dois terços de vazio e um terço de boa ou má vontade, de acordo com os casos: tentemos erradicar os dois terços de show off burocrático e mediático e ocupemo-los com calão e força para protegermos o próximo sempre de forma substancial. Puta que pariu os que não ajudam os outros e só querem aparecer. Creio que, para fazer coisas a sério, hoje em dia, coisas que valham a pena para o mundo, me devo afastar, não apenas dos poderes públicos, mas dos poderes fáticos. Há demasiada gente indignada que faz muito barulho e nada mais. No caso específico do maior drama de sempre dos incêndios em Portugal, um dos maiores de sempre no mundo, creio que o meu papel é lutar de forma silenciosa, usando o que estes mortos nos ensinaram. Que a sua vida valha muitos salvamentos. Lutar contra potenciais labirintos que eu conheça nos lugares onde vivo e passo. Nunca mais na vida bloquear pontos de água e pedir mais, se não vir nenhum. Ficar em paz perante os corta-fogos. Estar atento a quem grita pela sua terra e pelas suas matas. E não consigo fazê-lo de outra forma que não assumindo este luto e pensando que estes mortos são os meus mortos, que o seu fim horrível foi o fim dos que eu amo. Escrevo isto para vos explicar que este aperto que sentimos no peito quer dizer isso. E escrevo aqui porque tenho algumas centenas de irmãos que escutam e acolhem estas reflexões, como eu acolho as deles. Escrevo para entender, não para parecer bem. E sinto que entendo melhor. Como escrevia a Toni Morrison de uma das suas personagens em Beloved: a comida dela está cheia de lágrimas. A nossa comida está cheia de lágrimas. Movamos a terra para sermos todos um lugar melhor, aos poucos. A sério. Com as pequenas coisas que não fazem barulho, mas são amor.

PG-M 2017
fonte da foto

2017-06-14

Saramaguíada

 
 Aqui estou, sem cara - porque não é sobre mim, nunca foi, nunca será -, vestindo a camisola que vou suar literariamente no próximo ano (e na próxima vida), ladeado pelas capas dos meus meninos da Dom Quixote (capas do Rui Garrido) e com o novo livro, este vosso "Saramaguíada", a emergir da parede, porque foi um pouco assim que Saramago e Pilar começaram a ser amados (em todos os sentidos, e eu não excluo aqui os que desconfiam do mito - sim, do mito), em grafittis nas paredes de Lisboa - o arranjo gráfico deste teaser é do jovem génio Tomás Lucas, que merece toda a ventura (é separado, é).
E no grande Esse, que é obra do outro génio que estará ao meu lado nesta aventura (aqui é junto), o ilustrador Vasco Gargalo, estão, entre muitos outros, porque esse grande Esse serpenteia por todo o livro (salvo seja), como numa barca infinita, os nossos "grandes", alguns dos quais podem ver logo na capa, como Saramago, Pilar, Charles Robert Anon (o jovem Pessoa), o nosso labrador preto Shadow, Eça de Queirós, Maria Amália Vaz de Carvalho, Dom Quixote, Padre António Vieira, Alexandre O'Neill, Virigina Woolf e marido, Leonard, Voltaire, Salvador Dali, Confúcio, Gogol, Leni Riefenstahl, Robert Johnson (pai do blues do Delta), a própria Paris, para onde todo o livro se dirige, etc, etc.

Hoje, 14 de Junho, é Diassaramago. Faz 31 anos que Saramago e Pilar se encontraram fisicamente pela primeira vez, no Hotel Mundial. Um dia importante. Por ser um dia importante e estar dentro do livro, foi este o dia escolhido para dar a notícia de um novo livro, que não é apenas sobre Saramago e Pilar. Parte deles para toda a literatura. É importante (foi importante) que Saramago seja também personagem, objecto, mito, Quixote. O livro tem como título "Saramaguíada" e subtítulo "A invenção de Pilar".


Uma mensagem clara: sendo eu do norte, mais concretamente nado na freguesia da Sé, no Porto, criado nas Antas, tenho entre os lábios carnudos (este adjectivo ridículo já é um oferenda aos deuses menores) uma quantidade imensa de calão enérgico destinada à perfídia e aos que, não sendo em si pérfidos, a exercem regular e frivolamente. Sendo do norte, soy determinado pelo essencial, não pelo acessório. O meio literário é feito de gente muito boa e, já o disse no post anterior (sobre Bukowski), esses porreiraços, às vezes, são amarrados em grupo como vitelos num Rodeo e, mesmo assim, pensam que são os cowboys, não os vitelos. Vou ter o cuidado de, quando os vir comportarem-se como vitelos, os enlaçar e dominar com o meu calão nortenho, para que ganhem foco, se libertem e sejam mesmo cowboys. Ou índios. E, ainda que falte paciência para os extremos, desde as grandes máquinas de vender livros (que em si não têm mal nenhum, o problema é quando lhes falta temperatura), aos independentezinhos virtuosos com complexo de superioridade, este livro e eu estamos aqui para lutar pela substância e pela simplicidade e até pelo resgate de alguma erudição - não a que se esfrega na cara do interlocutor (essa, na prática, não é erudição), mas a que se ganha com silêncio, observação e humildade.

O resto passará sempre ao lado.
Agora, com vossa licença, comece a aventura. E a ventura. Agradeço-vos desde já todo o apoio de remos, quilha, suporte, abraço, tudo. Que é fundamental.
O livro sai no Verão de 2017. Exactamente quando, fica para outro teaser, daqui a umas semanas. Que até já pode ser o press-release (este, decididamente, não é; este sou eu, os leitores, os pares, os artistas e os editores). Vai ser um volume com qualidade e era mister (leia-se mistér, e não míster), para mim, que fosse profusamente ilustrado, porque há aqui uma nova iconografia que tem de ser interpretada por um  ilustrador da classe do Vasco Gargalo. 
Obrigado.

PG-M 2017
arranjo gráfico de Tomás Lucas
ilustrações centrais de Vasco Gargalo

14 de Junho, Diassaramago

Hoje, 14 de Junho, é Diassaramago. Faz 31 anos que Saramago e Pilar se encontraram fisicamente pela primeira vez no Hotel Mundial, em Lisboa, por volta das quatro da tarde. E este é o dia em que, logo a seguir ao almoço, será dada a notícia de um novo livro. Este grande Esse tem mais ou menos visíveis as personagens principais (ficarão quase todas claras por volta das duas da tarde, para que ideia assente até às quatro) - que são as personagens principais de muitas literaturas - e estará deformado e borratado até depois do almoço. Mas este Esse não é apenas sobre Saramago e Pilar. Parte deles para toda a literatura portuguesa e de toda a literatura portuguesa para a literatura universal. É ambicioso, mas não é pedante. Descarna a ignorância universal destes tempos (nenhum de nós pode saber tudo e muitos de nós ainda acham que só temos de saber até ao século XX, enquanto a maioria age como se só tivesse de conhecer o XXI ou, pior, apenas própria década) e responsabiliza-nos a todos por uma nova erudição. Há que respeitar profundamente os poucos que ainda a têm, mas não podemos continuar a facilitar, mesmo não a tendo, ou tendo-a poucos. Até lá, bom dia. E obrigado por iniciarem comigo esta terceira aventura literária.

2017-06-12

Somos todos (“verdadeiramente”) Bukowski ou como ser cínico e amar

 Eu não podia estar aqui. Não devia estar aqui agora, na "suite presidencial" de um hotel de asco pegado a um mall gigantesco nos arredores de Nova Iorque. Não, não, já perdi a frase. O Bukowski teria dito o lugar exacto, a rua, o beco, e não ia escolher um hampton qualquer, nem pensar em escolher o fio de baba tóxico de um hampton qualquer, ia para o outro lado, para sul, para o meio do barulho e da fealdade, das sobras da américa, onde dissecaria de forma meticulosa o ciclo de vida das lagartas nojentas que penetram a grande maçã até à inconsciência. Aqui, nesta merda de lugar, ainda se fuma e eu estipulo que sou advogado num escritório de advogados em Manhattan que ocupa dois edifícios e tem mais população do que esta parvónia de onde eu não consigo sair desde puto sob o estiolado pretexto das raízes, mais uma mentira urbana que me levará depressa à morte. Estou farto de gastar dinheiro, mas ainda não estou suficientemente farto de o ganhar para os mandar a todos à merda, o que eu já deveria ter feito. Era o meu máximo objectivo ao dobrar os cinquenta – ainda vivo aqui para os mandar a todos à merda antes de me afeiçoar à lapidação da ilha mais desejada e sobrevalorizada do mundo.


Estou a dispersar. Na verdade, só abri este texto para declarar a minha amizade a duas personagens ficcionais que estou a criar para o meu último livro, aquele que vou deixar inacabado, mas ainda não afinei o cinismo para o dizer de uma forma suportável para mim próprio. Se não é para mim próprio, para eles pode ser fatal. São um homem e uma mulher.


Nunca detestei o homem. Só não gostava da personagem que ele tinha composto em público. E é irónico eu dizer isto, porque, no regresso de carro de um festival literário no México, tínhamos mil quilómetros pela frente e não íamos estar calados como no avião entre Nova Iorque e Los Angeles, ele disse-me que a minha personagem pública era má e que eu tinha de fazer alguma coisa para mudar isso. Hoje eu sei que o que ele queria dizer é que eu não era suficientemente cínico e que um ser humano, qualquer ser humano em qualquer ofício, não pode aparecer aos outros como uma pessoa sensível e virtuosa, rodeada de amigos, principalmente de amigas, portanto um incorrigível onanista. O que aconteceu depois foi assombroso. Embora eu tenha a certeza de que, ainda hoje, ele não gosta verdadeiramente de mim, conseguiu que eu gostasse verdadeiramente dele. Passei a observá-lo com honestidade e lealdade, o que não fazia antes. Nunca lhe fiz mal, nunca disse mal dele a ninguém, excepto à minha mulher – mas isso não conta, como sabemos – , mas não queria saber dele. Quando nos informaram da editora que íamos estar juntos no México, e, pior, íamos juntos num avião e num carro e que, provavelmente, até dormiríamos juntos, por contenção de custos e partilha de quartos em hotéis de asco como aquele onde escrevo isto, creio que o desespero e a ansiedade tomou conta de ambos. Para lá ainda foi. Para cá, ele teve de falar. Reflecti sinceramente no que ele me dissera, disse-lhe que ele não tinha razão, mas tinha. Não a tinha toda, mas tinha metade dela, e ter metade da razão é tê-la toda, por não haver, no nosso século, tempo nem condição para conceitos muito claros, muito menos precisos. Eu, por ser suficientemente burro para me achar inteligente, adequei a minha existência pública a metade dos ditames do rapaz. Portanto, a metade da razão. O que é curioso é que ele próprio se encheu, quase até ao desespero, de ser um cínico urbano e declarou aos seus amigos radicais que ia abandonar a seita. Abandonou a seita e abandonou Nova Iorque e foi viver com a mulher para a ilha onde tinha nascido, uma ilha que ninguém conhece em frente ao farol de Montauk, só visível do céu durante dias límpidos de verão, que em Montauk são dois ou nenhum. Aí, a infinita curiosidade dele, que, quando misturada com cinismo, era insegurança descarnada, perdeu cinismo e ganhou paciência e sabedoria. Então ele começou a crescer. E crescer até um ponto em que, mesmo que seja pequeno, como eu, já me parece maior do que os nossos pares. Reconhecido, nunca deixei de lho dizer, passo a passo, o que ia vendo. Hoje ele até consegue ver em si próprio que a forma bem articulada como leva todas as suas intervenções sobre qualquer assunto é insegurança e timidez. Nas entrevistas, quase não lhe fazem perguntas, ou, as que fazem, já foram antecipadas por ele. A questão é que esse discurso articulado vai melhorando cada ano que passa. Se ele é humilde ao ponto de preparar e pensar aquilo que vai dizer e depois chega lá e diz tudo, ao ponto de não conseguir encaixar o humor e as indirectas como antigamente, na altura em que a vida dele era apenas humor e indirectas, tornou-se talvez o primeiro ser humano em que o decesso de humor, sendo uma limitação, não o tornou pior pessoa, pelo contrário. É simples e humilde, deixa as folhas em branco para nelas escreverem. E eu escrevo hoje essa espécie de declaração de amor para lhe dizer o que, sei hoje, ainda lhe falta. Foi claro na última intervenção pública que eu lhe ouvi: falta-lhe voltar a ser ilhéu. No conteúdo, no que mostra vindo de dentro, todo ele é genuíno, ainda que pensado e preparado, mas ainda fala como um novaiorquino afectado de Manhattan. Manhattan perdeu a condição de ilha, porque é a praça do centro do mundo, o mais ligado de todos os territórios. Mas ele é ilhéu. Nasceu e vive numa ilha cuja identidade hoje assume e promove. Perderá, um dia, o tom afectado de Manhattan. Nesse dia, será o mais perfeito de todos os imperfeitos pares. E eu torço por ele. Do fundo do coração onde o deixei chegar, ainda que eu não esteja no dele. Não faz mal. Nós, os falsos cínicos, os que precisam da voz de Bukowski para dizerem as coisas mais bonitas
como as cidades as comem , sempre quisemos o bem dos outros mais do que o nosso.


Já para ela, escrevo porque ela falou da intimidade literária numa entrevista e há no presente – e do presente ninguém fala – ilusões de aproximação e regressão, decisões de erradicação e dispensa de pessoas e grupos e mesmo de vidas inteiras. Escrevo para todas elas, as mulheres da minha vida, e há-as a chegar todos os dias, embora cada vez menos, mas para isso decidi reescrever à luz de Bukowski o meu único livro que é verdadeiramente auto-biográfico – antes disso, vou alinhar em grupos de sevícia a autores ou artistas que voltem a dizer publicamente que todos os livros são auto-biográficos, podemos arrancar-lhes os pêlos do cu a frio, por exemplo, a eles e a todos os assassinos da palavra poetisa: ainda tolerava que chamassem poetas às poetisas nos cem anos que se seguiram às poetisas menores, às meninas dos prostíbulos e dos versinhos, mas nenhuma mulher que escreve poemas decentes precisa já do desplante de lhe negarem – ou de negar a si própria – a palavra feminina para o que ela faz ou diz: apenas poemas. Ainda que um poema lhe possa conceder a vida eterna, não, nunca uma mulher de corpo inteiro será poeta. Para tal, passo a oferecer o rascunho de um poema definitivo que pode substituir a sevícia dos pêlos arrancados a frio. Mais tarde o arrumarei por versinhos:

poeta, assassina, poetisa, e também temos sem vírgulas

não existe uma só poeta mas existe uma só Sophia as poetas (que não existem) chamam-se a si próprias isso (porque a Sophia quis ser poeta e elas querem ser Sophias – mas não são) (ou então querem professar Sophia e ela não quer ser professada) (ou então querem divinizá-la e ela nunca o consentiria) mas não há poeta nenhuma depois de Sophia não há poeta nenhuma depois de Sophia não há poeta nenhuma depois de Sophia e como é óbvio poeta assassina poetisa e também temos com vírgulas os tempos mudaram não sejam ridículas em meio século nem a puta do verbete com dois géneros conseguiram só mania só manias só tiques (poeta nenhuma)

Finalmente, a ela, não à Sophia, mas à mulher a quem hoje dirijo uma espécie de declaração de amor, se a amizade for isso, digo-lhe o seguinte:
Muito antes de teres a coragem de fugir para Paris, muito antes de seres despedida de forma crua em Nova Iorque, onde dois anos antes te tinham dito que serias a obreira de um suplemento literário que seria mítico pelos anos vindouros, eu ouvi-te. Ouvi-te sem programa e sem futuro. Ouvi-te no presente. Nunca te penalizei com o corpo. Nunca te exigi nada, muito menos tu a mim. E sabia que, para um mero café, terias de ter muita coragem. Neste presente não é fácil deixar o conforto das teclas, que podem bastar para se dizerem coisas substanciais, para o desconforto de um espaço com pó e máquinas de moer grão e cheiros, os nossos cheiros, a preocupação de tomar pastilhas para o hálito ou escolher o perfume certo, a esperança de que os nossos defeitos não esmaguem a primeira impressão, sei isso tudo. Mas entre nós aconteceu tudo ao contrário: não houve qualquer intimidade ou ilusão literária. Eu limitei-me ser ostensivo quando assumi que “escritor” era um adjectivo meu desde sempre, que não precisava de autorização dos que se prostituem, verdadeiramente, há décadas, para terem algum domínio sobre o meio literário autista e minúsculo, um meio feito de elementos, que, apanhados a sós e sem lhes ser exigido que vomitem sentenças, até são suportáveis, até escrevem, mas, apanhados em pequenos grupos e previamente amarrados em conjunto como vitelos para Rodeos em que eles pensam que são os cowboys, e não os vitelos, coitados, são insuportáveis e abjetos. E, quando fui ostensivo, ouvi. Ouvi os abismos, as ânsias, pressenti a pessoa valorosa que és e que estava, não perante mim, mas do outro lado da linha, a tentar ser o mais verdadeira que conseguia apenas com teclas, e eu, apesar de acreditar cada vez menos nas teclas, sabia que as tuas teclas eras tu. Cada vez que vejo o teu trabalho, cada vez que te ouço, sinto um orgulho quase paternal, e este orgulho paternal não tem nada de paternalismo, pelo contrário, é uma das virtudes humanas, que há quem chame mais genericamente de empatia, mas é mais do que isso, vai mais longe, é verdadeiramente isento de corpo e, no entanto, embora não haja cobranças entre amigos, pode haver dívidas incobráveis, e a tua única dívida perante mim é física, é um café em que deixamos que o silêncio se habitue à nossa presença, em que tentamos perceber se é possível estarmos calados ao lado um do outro sem dizer absolutamente nada e mesmo assim sermos importantes um para o outro e ser importante continuarmos ali, calados. Pelos anos fora, tomei várias decisões, sendo uma delas deixar que a ilusão da amizade me tomasse e deixar que o seu contrário, exactamente o seu contrário, a ilusão da estranheza, vencesse. O tempo, sempre o tempo, diz-me que venceu a ilusão da amizade, ao ponto de ter passado a ser real. Esse café? Não importa, pode ser às portas da morte de um de nós. Convém apenas que aconteça para que a falta dele não passe a desventura. E tu saibas que, quando penso ou digo que gosto muito de ti, não estou a usar a leveza e a facilidade das teclas e das existências virtuais.

Obrigado, poeta. Obrigada, poetisa. Que provavelmente não são poeta nem poetisa. Mas serão amigos no México, em Nova Iorque, em Paris. Poeta, poeta, é Sophia, e não há poeta nenhuma depois de Sophia.

PG-M 2017

2017-05-21

Leste

 Culpo o vento leste por esta inquietude, por esta sombra putrefacta de desventura, quando a minha única fatalidade é a felicidade.
Quando eu era menino e os dias de leste vinham, eu ajoelhava-me aflito no sofá junto à janela aberta da sala e respirava depressa, para não sufocar.
A minha mãe vinha e dizia Pedrinho como nunca mais ninguém disse e punha-me a mão na testa e dava-me um beijo e dizia
ca
lma.
Perguntava se eu queria uma compressa molhada para a testa e eu abanava a cabeça aflita a dizer que não, mas ela trazia na mesma, como nos trazem sempre as boas mulheres na aflição e na febre.
Estou como nesses dias, aflito, mas o peso do mundo e da minha função nele faz-me parecer calmo. Talvez notem apenas que hoje não falo, logo eu, que falo tanto, que nunca deixei de ser a criança que não se cala com o entusiasmo de estar viva.
Mas estou muito aflito e a culpa é do Leste.
Tenho de ver a minha mãe, porque posso, e continuar a sofrer pelos que não podem. Creio que só hoje entendi as consequências de não ter a mãe no mundo e a sorte de ainda a ter. Sem ela, as aflições tornar-se-iam infinitas. Sou bem capaz de chorar, quando a vir, mas quem observar esse encontro vai dizer
o filho da Mena está sempre a rir-se
e depois fica o mundo a aderir e a regredir, ficam uns a dizer que este sorriso é dor velada ou hipocrisia, outros que não, que sou mesmo um puro, e finalmente outros
simplesmente a amar-me

PG-M 2017

2017-05-13

Já ganhámos

 Nota prévia: este artigo foi escrito na manhã da vitória, mas, sinceramente, não era difícil prevê-la. O mundo inteiro apontava para ela. Junto no final o vídeo da semi-final do Eurofestival, com aquela que, das seis interpretações oficiais (3 domésticas e 3 Eurovisão, incluindo as da vitória) foi a minha preferida;

Sabem o que se usa nas redes sociais? Escrever assim amanhã, quando o Salvador encher as capas de todas as revistas e jornais, não por ser um doente cardíaco bissexual*, mas por ter ganho o Festival da Eurovisão 2017, em Kiev, "eu, no dia da semi-final doméstica, disse logo que este rapaz e esta música eram do outro mundo". Ou seja, é por minha causa que ele vai ganhar. Não é. Mas vai ganhar. Na verdade, já ganhou. E é curioso que a minha admiração tenha deixado de se dirigir ao compatriota e à bandeira portuguesa, que certamente serão uma parte do gozo, da emoção e do orgulho. A minha admiração dirige-se à universalidade e beleza da canção e à universalidade e singularidade (parece contradição, mas não é) do próprio Salvador. Creio, como se rezasse uma prece, no que vou dizer: a Luísa Sobral escreveu uma das melhores canções dos últimos séculos, não da década, não deste século, não deste e do anterior, mas de sempre. Tenho dito que é uma espécie de "Yesterday", mas é muito mais bonita. Não está em causa o mérito da Luísa, mas calhou. A conjugação das estrelas, do tempo, do momento, das redes sociais e a singularidade do intérprete fazem o resto. Também não acho que se devam preocupar com o legítimo direito ao cinismo e à fuga à unanimidade. Deixem-nos, coitados, porque já lhes basta sentirem-se sempre infelizes e não serem capazes de tomar o imenso banho de luz que esta canção dá cada vez que é cantada e não só pelo Salvador - eu já vi todas as sensibilidades rendidas, desde o bêbado de tasco até aos domésticos, dos agricultores às sopranos, mesmo os que, a princípio, aderiram a outras músicas e estranhavam o histrionismo ou a expressividade ou a singularidade do Salvador. Na verdade, essa "diferença" é só a marca do inérprete, é um factor mais na parte menor: a liderança de casas de apostas e a vitória num festival. Mas a canção está acima do Salvador e da Luísa, está já pelo mundo inteiro. A letra, em toda a sua simplicidade, agrega milhares de páginas de filósofos. Esta coisa de o amor ser tão elevado e intenso que chega para os dois e dispensar um deles de o sentir é, afinal, a história de séculos de mulheres, principalmente de mulheres, esses seres superiores. Não admira que tenha sido escrito por uma. Depois da semi-final doméstica, a canção já era trauteada nos carros a caminho do trabalho. Depois de ter ganho o Festival da Canção e ser o legítimo representante de Portugal na Eurovisão, começou a ser cantada, imitada, mimetizada, pela Europa toda, com Espanha
como a principal entusiasta, porque, afinal, com a excepção de "devagarinho" e "pelo", as palavras são quase iguais em castelhano. A orquestração é magnífica e fixa logo dois terços dos ouvintes na abertura. Depois de ter actuado na semi-final da Eurovisão, então, não há limites. A canção é pedida na abertura de bailes de casamento em todo o mundo, é cantada pelos ucranianos em
português - sim, pelos vistos quase todos a querem cantar no original, e, aqui sim, é um serviço maior à nossa língua -, há já várias covers de altíssima qualidade, da Austrália ao Japão, do Japão aos EUA, que mostram que o mérito é da própria canção, e eu tenho a certeza de que a Luísa fez um clássico de todas as eras, que será interpretado por todos os estilos musicais. O próprio Salvador se encarregou de gravar para um amigo uma versão em flamenco. Vi a irmã e o Salvador nos ensaios gerais e há duas coisas curiosas: o Salvador é melhor intérprete do que a irmã para esta versão - esta é a primeira. A segunda é que, mesmo que o Salvador nunca se repita, fruto da sua alma jazzística, a canção sai sempre bem. Portanto, a Luísa fez uma canção à prova de bala. Durante anos queixámo-nos de que nunca ganharíamos isto porque o sistema estava "feito" para ganharem os países com maior emigração - a nossa não é baixa, mas não é a maior. Na verdade, se essa perversão tem alguma verdade, é o único factor que nos pode tirar a vitória hoje. Mas eu creio que ganharemos e que já ganhámos.
Na verdade, é todo o mundo que ganha, porque é uma das melhores canções de sempre que ganha. Encerro com um pequeno apontamento: bonitos os portugueses, aí sim. Em quase todos os comentários que li no youtube às várias covers e produções caseiras estrangeiras deste "Amar pelos dois", há sempre palavras de gratidão de portugueses.
É aí que somos grandes: chamamos os outros para a nossa celebração. E muitos vêm. Mas, na verdade, o que Portugal hoje leva ao palco é o universo. Esta canção já é do universo. Era bonito que trouxesse o troféu que já ganhou e que será falado pelos séculos adeante.

* dado o elevado número de leitores deste post, o que eu já previa em caso de vitória, voltei a experimentar daquelas reacções azedas dos que tresleram o que aqui foi escrito. Eu abro este post a apontar o dedo àqueles para quem este nosso músico, que ficará na história por todo o sempre, foi apenas vida privada. A esses e aos tiques das redes sociais. Não estou a expressar uma opinião ou a estipular um facto. É evidente que não a tendência sexual do Salvador e a vida privada são apenas fait-divers para vender.  Não dele. Não da essência deste momento notável. Muito menos meus.

Nota póstuma: no dia da nossa primeira vitória na Eurovisão o Benfica foi tetracampeão pela primeira vez e o Papa Francisco I visitou Portugal para o centenário das aparições em Fátima. A cobertura televisiva de Fátima foi de grande qualidade. Quanto ao resto, isto foi o que eu escrevi uma hora depois da vitória: "Tenho pena que o Salvador não tenha ganho num ano em que o FCP fosse campeão, para eu mandar à merda certas televisões que anunciam em rodapé, sem tirar as imagens dos Aliados (seriam os Aliados) do ecrã, uma vitória histórica e emocionante de pelo menos três gerações de portugueses que viveram isto ano a ano e fracasso a fracasso, com músicos tão bons ou melhores, e não pensarem que era decesso de poder de encaixe. Não aceito um certo jornalismo e uma certa falta de visão. Eu estava num shopping com as televisões todas a dar a vitória no futebol e nenhuma sintonizada na RTP1, mas quando foi certa a nossa primeira vitória na Eurovisão foi um bruá belíssimo pelos pisos todos. Graças aos telemóveis e às apps que tanto criticamos. Eu sei que este país vai saber celebrar isto, mas tenho pena que não haja coragem nas televisões que não transmitiram o festival para afrontar esta miséria da cultura futebolística por um momento tão belo. Subitamente, como ele próprio disse, ganha o que importa, ganha o que é, não o que parece. Se o FCP tivesse sido campeão, eu queria lá saber. E que diferença faria uma noite de glória da música portuguesa em três semanas de festejos ciclicamente repetidos? Ah, eu sei. É o dinheiro dos anunciantes, os que pagam tudo, mesmo os empregos. Vendamos tudo ao desbarato, pois."

 

PG-M 2017
fontes das fotos 1 2 3

Perfeitos Conhecidos

Quem vê o trailer deste filme italiano de Paolo Genovese - que tem três argumentistas homens e uma mulher, que os deve ter combatido sem quartel -, tem logo duas ou três ideias-tipo: boa ideia, imperdível, dificilmente sairá da mediania. Mas sai, e bem, quase em direcção às estrelas. Quem vai acompanhando os meus escritos amadores sobre cinema, sabe pelo menos duas coisas: que só escrevo sobre filmes urgentes (nem que a urgência seja evitá-lo, o que não o caso deste) e que me assumo como cinféfilo de rua, o tipo que há trinta e tal anos vê pelo menos dois filmes por semana nas salas, em média (às vezes mais, na altura dos óscares, às vezes um). Façam as contas, são muitos milhares. Raramente vejo o pequeno cinema (portanto, em casa), porque prefiro concertos ao vivo, e na verdade o concerto ao vivo que um filme é vale quase sempre a pena e até é um vício barato.
O título português, mais uma vez infeliz, é "Amigos, amigos, telemóveis à parte". Gostava de justificar o "infeliz", porque até tenho respeito pelas pessoas que fazem este difícil trabalho de traduzir títulos (sendo que não lhe podem dar qualquer título, porque alguns já estão tomados por direitos de autor): é infeliz porque induz a leveza, o light, o frívolo, e o filme não é nada disso. O título italiano, traduzido à letra, "Perfeitos Desconhecidos", também é pior do que o deste post, modéstia à parte, porque creio que a abordagem de um parceiro lúcido é a de que já sabe que o seu próximo, o seu cônjuge, o seu amigo, o seu filho, têm os seus próprios segredos e que não saudável viver de esqueleto à mostra. Mas ainda há quem pense e defenda o contrário: este filme está do meu lado, e de forma paradigmática: o mais honesto entre todos é aquele que mais abertamente se declarou contra o tal jogo perigoso de colocar os telemóveis em cima da mesa e deixar que todos os convivas os devassem.

Este filme é urgente porque induz um debate - em princípio saudável, mas pode ser doentio, ficam já avisados. Este filme é urgente porque é sobre nós, hoje. Este filme é urgente porque faz rir de forma não desbragada. Este filme é urgente porque encerra muita beleza, e não, de certeza, o eclipse. Embora eu dispensasse a musiquinha de fundo quando o pai fala com a filha ao telefone, a meio do filme, essa cena é fortíssima e comovente. Este filme é urgente porque pode ser (não é) teatro puro e do melhor em qualquer parte do mundo, assim um bom encenador lhe pegue. Eu adorava vê-lo em palco. Pode mesmo ser de uma violência extrema para as nossas certezas e para as nossas culpas, mas é obrigatório. Claro. E com claridade.

PG-M 2017

2017-04-06

Escola e futuro são isto: a sabedoria de José Pacheco


Leiam e releiam vezes sem conta as palavras e as ideias de José Pacheco, porque Escola e Futuro são isto mesmo. Ligação para a reportagem da Notícias Magazine (2017):


Fotografia de Nuno Pinto Fernandes / Global Imagens 

2017-03-31

Marisa

Embora eu tenha deixado de escrever sobre todas as visitas às escolas (cento e onze nos últimos seis anos), ou por causa disso, há coisas e pessoas que precisam de registo, que merecem registo. Já sei que não vale a pena dizer que a Marisa, a menina objecto deste texto, é apenas uma entre muitos meninos e meninas valorosos, aliás, pessoas valorosas, que incluem professores, dirigentes, delegados da editora, o departamento de encontros de autor e até livreiros que nos têm apoiado neste esforço. Não vale a pena, porque todos se vão lembrar apenas da Marisa sem fazer esse exercício de perceber que ela é apenas a que se destacou de todos os valorosos. Mas ela merece esse equívoco, essa singularização onde, por uma vez, eu queria aquilo que fazemos todos os dias pelas razões erradas: a generalização.

Acontece que olhar para a Marisa é olhar para mim aos treze anos. Para a revolução que ia dentro de mim, quando, aos doze, me pus a ouvir e a ler tudo sobre escritores e sobre o que os escritores diziam e a ler tudo o que pudesse ler deles, porque não havia muito dinheiro em casa, havia poucas bibliotecas nas escolas - e eram pequenas -, eu tinha treze anos e não podia ir sozinho a lado nenhum e nunca tive a sorte de me parar à porta uma carrinha-biblioteca itinerante e as livrarias não eram, ainda, feitas para deixar circular os leitores. Houve um escritor que disse: ninguém devia publicar antes dos quarenta. Nunca mais me esqueci, e cumpri-o escrupulosamente. Olhar para a Marisa é olhar para o inefável universo de que muitas vezes me fala a minha amiga Carla Flores, miúdos ainda mais novos do que a Marisa que são como sóis do seu próprio sistema solar ao qual apetece pertencer, por deixarem logo a sensação de que, na vida mais acinzentada que nos forra os dias, não há nada assim, nada parecido, nada que chegue perto, nada intelectualmente tão puro e tão cheio de possibilidades. Mas não há uma fórmula para isso. Apesar da abertura social, eu só conheço um lugar onde rapazes e raparigas valorosos, por um lado, e adultos que, não só os ouçam, mas com eles queiram partilhar o espaço intelectual, por outro, possam conviver: a escola. Mas a escola pertence aos que lá estão, e quem vai de fora volta com a tal ressaca de afectos de que já aqui falei tantas vezes. Uma coisa que me tocou particularmente foi ver a Marisa aos saltinhos, a perguntar, quase de forma retórica, "mas como é que eu posso dizer o resto que quero dizer?". Lembro-me tão bem de sentir isso. De ter uma revolução a acontecer na minha cabeça e no meu corpo e das festas de adultos onde me era dada atenção daquela forma paternalista e eu aproveitar para debitar desesperadamente tudo o que podia no mais curto espaço de tempo e a ver aqueles sorrisos amarelos de quem pensa: "bem, miúdo, eu só te fiz a pergunta por fazer, não era para me espetares com um tratado". Acontece que há miúdos que têm tratados dentro, porque lêem e pensam tanto que precisavam de um lugar para o fluxo do seu pensamento correr, um rio próprio, mas ficam com a única alternativa de inundar uma ribeira qualquer que é escavada temporariamente por um adulto que passou perto deles. A maior parte dos amigos da idade deles não os ouve, não lhes dá atenção com a profundidade que eles anseiam e de que precisam, e a maior parte dos que são mais velhos tolera-os, em vez de os acolher e entender.
Os treze anos da Marisa, o sorriso e a humildade da Marisa, a propriedade com que a Marisa se pronunciou sobre assuntos relevantes, a opinião fundamentada e muito madura sobre um dos meus livros, a impressão sobre a sessão escolar, escrita em plena sessão, o que escreveu nos livros, em jeito de dedicatória, a troca de comunicação comigo através da professora Filomena, aquela ansiedade luminosa e magnífica de dizer mais, de perguntar mais, o espanto de saber que o poema que ela elegeu (e ela teve o cuidado raro de ler, estudar e escolher para si), "Rafaela", se baseia numa pessoa real que ela certamente imaginará, na pureza dos seus treze anos que aspiram, vê-se bem, a serem rapidamente mais, com encanto ou desencanto por vidas bonitas ou difíceis, seja ela um pouco da Rafaela ou seja uma Rafaela um pouco menos ou um pouco mais do que ela, representa certamente o que a Marisa quer que um dia escrevam sobre ela própria.

Quando temos treze anos assim, devemos sorrir ao espelho e desacelerar o tempo, para que essa limpidez da existência e das aspirações se mantenha por muito tempo, antes de ser inquinada pela dureza da vida ou pelo aperto dos crivos ou pelo mero desencanto.

As magníficas jovens pessoas como a Marisa devem ser protegidas para se irem mostrando aos poucos, guardando a energia que a exposição excessiva consumiria, usando-a na construção do seu edifício pessoal de uma forma estruturada, sustentada, com a calma e serenidade dos sábios e esta curiosidade explosiva nas mãos e nas perguntas, ocupando o espaço deixado pelo niilismo e pela falta de sustentação da informação profusa a que todos temos acesso. E nunca devemos simplificar a mensagem: as palavras, as ideias, a forma como falamos com eles deve ser sempre a das pessoas crescidas, porque só o colo se dá a todos - quando deixam - como bebés.

Para isso, para lá do colo, também temos de lhes dar espaço e de os ouvir. De os ouvir verdadeiramente. De aprender com eles a grandeza das possibilidades e de lhes ensinar a gerir o banal, que é o que a vida nos ensinou a nós. Como ser o mais perfeito possível num mundo imperfeito. E como ser assim, puro e valoroso, sem ser devorado.

Escuto-te, Marisa.
A última mensagem, afinal, tem de ser a mais banal de todas, a tal que advém da banalidade que tu não tens ainda, mas que nós, os meninos curiosos mais crescidos, aprendemos:
nunca deixes de ser como és.
É a teimosia de seres melhor que te vai fazer realmente melhor.
Obrigado, Marisa, por teres entrado no meu mundo e deixares que o meu te sirva.

PG-M 2017
foto da própria

2017-03-26

Sónia Braga é nossa

Declaração de amor e de interesses: escrevo sobre a Sónia Braga que foi doada a Portugal pelo foral da Gabriela. Escrevo, pois, em interesse próprio. Ainda que Sónia Braga seja respeitada dos dois lados do Atlântico, só em Portugal é venerada. Se forem pelas ruas de qualquer cidade ou aldeia portuguesa e baterem às portas das casas perguntando aos homens se deixariam tudo para beijar chão que ela pisasse, não há um único português que diga que não, a não ser que ainda seja tuga. Sim, porque o português deixou ser tuga, esse diminutivo inventado no Brasil e usado, ao longo dos tempos, e simultaneamente, com as propriedades do amor e do carinho, mas também da sobranceria e da ignorância, pois, entre outras razões, o português deixou de ser tuga quando a Gabriela nos entrou nas casas. A Gabriela garantiu-nos, finalmente, a liberdade conquistada em Abril e reforçada e temperada em Novembro. Só nesse dia o português ficou livre, deixou de ver apenas rectas e ângulos rectos e passou a ver morenas açucaradas. Era uma segunda-feira, 16 de Maio de 1977, três escassos dias depois do 13 de Maio, em Fátima, três escassos anos depois da revolução. E, apesar da curva e do corpo da morena, do cheiro tropical das imagens e da pouca roupa da Gabriela, foram os avôs e avós de Portugal os primeiros a levantar a mão para que se fizesse silêncio e nada fosse perdido, passando pelos deputados que não deliberavam ou votavam durante a novela, até ao épico último episódio, numa quarta-feira, 16 de Novembro de 1977, que deixou Portugal de ressaca. O Brasil tinha uma história antes de Gabriela. O Portugal moderno não. Daí que Sónia Braga seja nossa e não se fale mais no assunto. 
Vem isto a propósito da Sónia Braga a beirar os 70 anos que protagoniza o pujante filme Aquarius, de 2016,  e que é um justa consagração. Quando ela amarra o cabelo e deixa ver a parte de trás do pescoço, é ainda a menina de há quarenta anos. Aliás, ela é a menina de há quarenta anos em tudo, não só na parte de trás do pescoço, e não se fala mais nisso. A forma como se move, a forma como nos olha naquele olhar castanho-nogal que o sol do Recife inflama. Não há um único pormenor em Sónia Braga que denote que o tempo passou, e seria pérfido quem viesse lembrar algum detalhe irrelevante. Quando ela pega nos mesmo vinis - dos Queen, do Roberto Carlos, do John Lenon, do Gilberto Gil - que nós cutivámos, sabemos que este é o culto perfeito e definitivo. Por mim, deixo a passageira afirmação de que aqui está a eternidade dela, isso e o remate de um mito, que Portugal bem merecia - finalmente houve um realizador à altura para nos dar isto, que devia ser obrigatório para a nossa geração e para a anterior, a passageira afirmação de que "Aquarius" é um grandíssimo e imprescindível filme que nos vinga a alma no tempo do passado recente e no presente, glorificando Sónia Braga pela eternidade como a cena de abertura do filme da Gabriela, com que encerro este, e depois da qual nos poderíamos encomendar ao criador. E a menos passageira afirmação de que a nudez da Gabriela não é menor do que a de Clara, à porta dos setenta, e nós desejamos sem culpa a mulher que nos fez homens da mesma forma que há quarenta anos, e todos nós beijaríamos hoje e para todo o sempre o chão que Sónia Braga pisa. Amém.

PG-M 2017

2017-03-18

Tabacaria espontânea: Carol 10.000

 "Cê pode ler textos meus com o seu sotaque maravilhoso?", "Claro que sim." E, digo eu, maravilhosos eram os textos da Carol. "Ai, que maravilha!" (dizia ela, ouvindo o meu sotaque, que não a minha leitura, porque nem sequer leio ou digo bem). "Eu sei a Tabacaria!", "Sabe? Que parte?", "Eu acho que toda", "Toda?", "Sim.", "Seria capaz de a dizer agora, sem preparação, e autoriza que eu filme?", "Claro." Armei o telemóvel, o mesmo que filmara o "Happy" de Minas por esses dias, e filmei seguido, e à primeira. Cada vez que sou notificado de um comentário, venho rever. É maravilhoso. Mais até do que a interpretação, o facto. A quem já ocorreu uma Tabacaria espontânea? A oito mil quilómetros de casa, eu lembro-me de que só queria chegar e chutar isto para a rede. No avião de regresso, mostrei o vídeo ao sobrinho do próprio autor. Ele espantou-se, como todos. Esta menina, a Carol, a quem chamámos Silvia Plath, e a Lívia, que assiste primorosamente, a quem chamámos actriz, já entraram na universidade. Ainda a quiseram trazer cá, e deviam, mas na verdade ninguém trouxe. Quase a celebrar as dez mil visualizações.


2017-03-04

O peso do leve

Em defesa do frívolo e da forma como ele - por vezes - nos pode iluminar.
Casos práticos: a nova música do Justin Timberlake, Can't Stop the Feeling, saída da banda sonora dos Trolls, passava-me completamente ao lado. O próprio Justin era artista que me passava ao lado. E creio que - ele e a sua música - passariam sempre, não fossem dois momentos relevantes: o Justin Timberlake ter estado por dentro da abertura dos Globos de Ouro, com o Jimmy Fallon (esta brilhantíssima, e que fez falta nos óscares) e na abertura dos Óscares (esta, aparentemente tão simples, mas complexa, em termos de realização e coreografia para uma transmissão recebida por milhares de milhões de pessoas e onde um detalhe - veja-se o caso da troca de envelope - pode ser dramático). De o próprio Justin ter contribuído para destruir todas as boquinhas, todas as críticas, com um elevado sentido de humor. Esse momento dos óscares injectou-nos de luz, a suficiente para esquecer o exagero do LaLaLand. Então dou por mim a modificar-me ao som da música que antes nem um pêlo me levantava. Ao ponto de já a ter encaixado na minha playlist, no meio de uma injecção de Credence Clearwater Revival. Mas esta coisa dos guilty pleasures é mais substancial do que pode parecer, se reflectirmos sobre estas invasões. Em 2014, no Brasil, o grupo de portugueses e espanhóis que foram a um festival literário tinham todos um sentimento idêntico sobre o hype da altura, o "Happy", do Farell Williams, não por causa do Farell, que é um grandíssimo compositor, mas por causa da massificação de Happies à escala global. Para "gozar" com o assunto, fizemos o nosso próprio "Happy", que abria com uma mimetização da passadeira de Abby Road, dos Beatles. O efeito foi de tal forma positivo, luminoso, que, não só se cumpriu a nossa dádiva de gratidão aos brasileiros e portugueses que nos receberam no sul de Minas, como despertou o interesse da Globo, que ainda fez uma ou duas reportagens sobre o assunto. Hoje, anos volvidos, e tendo perdido a vida duas das pessoas que participam no vídeo, tenho a certeza que todos os outros sentem o "Happy" como uma música importante, fundamental mesmo, no seu percurso. Podia continuar, mas isso ia obrigar-me a desenvolver a minha tese sobre o génio que é Jim Carrey, por exemplo, que, à conta de nos fazer pensar que nos dá barrigadas de riso pelo frívolo, é de uma profundidade e cultura estonteantes, algo que por cá nos habituámos a ver no Ricardo Araújo Pereira, mas noutro nível (o Ricardo não tem a capacidade de se rir de si próprio e consigo próprio que o Jim tem, tampouco a gargalhada franca, que no Ricardo é mais a assumida técnica humorística da autodepreciação). Sei que,não raro, me criticavam o meu Conan O'Brien por ser light, por nada ali se aprofundar, e eu me perguntar, admitindo que até era verdade, a razão de me sentir pleno com aqueles programas. Chego a esta conclusão intermédia (intermédia, porque este é apenas um princípio de reflexão), que talvez explique porque é que todos, mesmo aqueles que buscam algo mais profundo ou elevado, precisam do frívolo para sobreviver, principalmente do frívolo que ilumina e diverte: é que nós, na intimidade, somos isso mesmo, animais banais e frívolos que tentam sobreviver, cheios de tiques e hábitos nada elevados ou profundos. O frívolo é, pois, a nossa natureza. Precisamos dos que iluminam sem complicar para aguentar os dias mais sombrios. Precisamos de dançar e de cantar e de praticar o air guitar ou o air drums, precisamos de ser bonitos e cool ou que sejam bonitos e cool por nós.

PG-M 2017